Criado-mudo
Em outubro faz um ano que moro sozinha e confesso que quando mudei não pensava em ter um criado-mudo, não que não quisesse, simplesmente não lembrava que essa peça existia. Meses passaram, cama, sofá, cozinha, banheiro, sala, banquinhos, cadeiras, som, dvd, tv, cortinas, vasos, plantas, quase tudo ali. E nada do criado-mudo.
Até que meu namorado sugeriu: você não quer levar um dos criados-mudos pra sua casa? Queria ter visto minha cara de interrogação… Aceitei pra não fazer desfeita. Já que certa vez disse que os criados-mudos em questão eram feios. Ouvi uma dissertação sobre eles, lindos móveis da década de 50, em Madeira xyz, design chambers e sei lá mais o que. OK. Feio ou não foi parar lá em casa. Esse fica do lado da cama dele…. Nada pessoal.
O meu lado não podia ficar desfalcado. Fui a casa de mamãe, peguei meu querido criado-mudo, criado comigo desde a infância. Já foi branco, verde, preto, creminho…. Em uma de minhas alucinações, achei que sozinha poderia remover todas aquelas camadas de tinta e história e começar uma nova fase ao lado dele. Ótimo companheiro. Nunca reclama e tá sempre me esperando no quarto, não importa o horário ou o estado que eu chegue.
Ele é simples, retangular, sem design, puxadores ou rococós. É o que é. Queria pintar de branco e colorir as duas gavetas. O branco ficou ótimo. Depois, misturei umas tintas que estavam na oficina de garagem do meu pai, no potinho parecia um vermelho meio envelhecido, fosco. Uhu! Gostei. Pintei as gavetas… ficaram cor de rosa… a última cor que eu queria na minha casa. Rosa é coisa de menininha…. Não posso mais ser menininha, eu troco até o gás…
Como tinha pressa em igualar o meu lado da cama levei pra casa assim mesmo. Quando estava chegando com aquela bela peça, encontrei uma vizinha, a de baixo. Não tardou em começar a conversa de elevador e ela logo perguntou: Foi você que pintou? Acabou comigo…. Quem ela pensa que é? Nem me conhece e não ficou assim tão ruim. Me vinguei dela, com uma festa lá em casa….
Vizinhas a parte, coloquei ali, do meu lado da cama. Pra ficar mais importante que o outro a luminária fica sobre ele. Do outro lado tem uma foto, um incenssário com umas pulseiras em cima. Nem gaveta tem, só uma portinha pra empilhar alguns livros, bloquinho, caneta e minha pílula. O outro não. Ah… o meu. No meu lado está a luz, cartões e bilhetes do dono do outro criado. Nas gavetas, mais bilhetes, cartões, um chiquérrimo saca rolhas e camisinha. Sim além da luz eu também tenho as camisinhas em meu poder. Na gaveta de baixo, os próximos livros da fila, pilhas, cigarro, uma foto minha que ficou terrível mas nem tanto, por isso tenho dô de jogar fora. Uma latinha que meu irmão pintou pra mim, uma escova dessas de sapato, um leque, um disfarce daqueles com óculos e bigode de plástico, tem também uma espécie de pastinha com santinhos e orações. O meu criado-mudo é muito mais consistente, importante e imponente. Naquele branco com cor de rosa, que não orna com nada. Mas é o meu. Eu que fiz.
Ao alcance da mão está o livro atual: Risíveis Amores – Milan Kundera. Ganhei no dia dos namorados depois de terminar com meu atual e futuro namorado. Um ótimo livro pra quem quer rir de si mesmo, se reconhecer em contos e perceber esses jogos criados inconscientemente pra se divertir.
De qualquer forma a casa é minha e o criado-mudo dele não pode ser mais importante, maior ou imponente que o meu. Por enquanto tá resolvido, mas logo, logo ele vai pra lá… aí eu quero ver. O criado-mudo da casa dele é praticamente uma cômoda anã. Vai ficar maior que o meu e ele vai querer dominar a luz e as camisinhas. Eu, com plena consciência de estar sendo manipulada, vou esquecer minha louca disputa, puxar a cama mais pra cá pro criado dele entrar, talvez o meu vá para o pé da cama e o outro, menorzinho, só com a portinha, vire meu e fique bem ali a meu lado. Graças ao Kundera vou adorar e um dia ainda conto essa história pro namorado, bem ali entre todos esses criados-mudos.
bjo, creunice
sexta-feira, 13 de julho de 2007
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Um comentário:
Porra, não tinha lido esse ainda.
Fantástico.
A gente é completamente louca!
Só isso!
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